Você quer fazer parte?

Você quer fazer parte?

Por Marcelo R. S. Ribeiro

As nossas reuniões e atividades são públicas e abertas, e você encontra os registros do que temos feito no item Atividades , no menu do site. Ali está um calendário que indica também o cronograma a seguir. Se quiser participar, basta entrar em contato e detalhar seu interesse, pra que a gente possa dar o caminho das pedras, como se diz.

Pra quem tiver interesse em formas de participação menos difusas ou eventuais e queira fazer parte do grupo de modo mais ativo (e passível de reconhecimento institucional e certificação), nós temos dois caminhos abertos, atualmente: o Edital de Seleção para Iniciação Científica 01/2020 e o Edital para Acolhimento de Integrantes 02-2020 (são dois editais do grupo, por isso a numeração sequencial).

Começamos a divulgar as duas chamadas de inscrições nas nossas redes há alguns dias, mas queríamos falar um pouco mais sobre a diferença entre os dois editais e sobre a motivação relacionada ao edital para acolhimento (e o porquê desse nome, afinal). De modo geral, a diferença está expressa, principalmente, por duas palavras: "seleção" e "acolhimento", enquanto a motivação para o segundo edital decorre do reconhecimento dessa diferença e do fato de que nós acreditamos que o grupo deve contribuir para que a academia se torne um espaço mais marcado por uma experiência de hospitalidade. Mais que isso, a gente está tentando começar a fazer com que, a partir do grupo, para produzir conhecimento e arte, pesquisa e aprendizado, uma experiência de hospitalidade radical seja colocada em jogo.

Fala-se muito em "seleção" em todos os contextos da vida acadêmica, e isso tem a ver com condições estruturais básicas que são limitadas, mas acaba também muitas vezes alimentando uma lógica interna de competição que, pra gente, é preciso tentar perturbar, de alguma forma. Isso não é fácil, nem depende de decisões pontuais e da mera expressão de uma vontade. Em vez disso, é de um trabalho de desaprendizado e desmontagem que se trata, e a gente sabe que está só começando, se muito.

Por isso, como temos apenas poucas vagas de pesquisa de iniciação científica, lançamos um edital de seleção destinado a elas, que são voltadas apenas para estudantes de graduação da UFBA, criando assim um momento suplementar de seleção para quem já passou, no mínimo, pela seleção que determina o acesso ou não aos cursos dessa universidade. Selecionar implica excluir, e é por isso que frequentemente os processos seletivos são atravessados por formas mais ou menos evidentes de violência estrutural.

Isso é terrível, e foi tentando começar a estranhar alguns dos modos de naturalização dessa violência estrutural dos processos seletivos que marcam a vida acadêmica que a gente decidiu abrir um edital para acolhimento de integrantes. É muito pouco: não há bolsa, nem perspectiva imediata de bolsa; há apenas a garantia de registro institucional de vínculo, no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq, de quem for acolhido ou acolhida. É muito limitado, mas é uma primeira experiência de hospitalidade radical: não vamos selecionar, vamos acolher as propostas que forem recebidas nesse segundo edital.

Para que exista hospitalidade, é preciso que exista uma relação de acolhimento, e não demolição; é preciso que ocorra um reconhecimento das estruturas que habitamos: da casa que construímos; das fronteiras que a definem; das portas, janelas e buracos que a abrem para o mundo. Não é possível, nesse sentido, uma hospitalidade absoluta ou indiscriminada (que corresponderia a uma demolição das paredes da casa), mas é uma hospitalidade impossível dessa ordem que nos interessa: em última instância, talvez seja preciso derrubar algumas paredes para reconstruir uma casa mais arejada.

Por isso, toda experiência de hospitalidade radical decorre de um adensamento da abertura possível, de um transbordamento da estrutura construída, de uma recusa do fechamento de portas e janelas. No nosso edital para acolhimento, essa proposta de hospitalidade radical parte do reconhecimento do grupo como espaço institucional estruturado, monitorado, controlado, como um domínio, uma casa comandada, com fronteiras demarcadas; e passa pela vontade de confrontar nosso próprio comando, que é também a submissão aos comandos de tantas outras instâncias.

As propostas apresentadas poderão ou não ser acolhidas, não em função de qualquer tipo de avaliação hierarquizada, mas por meio da tentativa de identificar possíveis relações das propostas com a arqueologia do sensível. Se há relação, deve ser possível acolher ativamente, sustentar uma abertura radical em que, de modo autônomo, proponentes venham se juntar ao grupo e partilhar sua inquietude constitutiva. Se não houver relação que nos pareça possível, vamos conversar, escutar, talvez repensar. A ideia é que seja possível demarcar o espaço-tempo do grupo como instância aberta: uma demarcação que não opera no sentido de marcar a unicidade de uma fronteira e excluir a multiplicidade de um fora, e sim no sentido de resguardar um espaço-tempo de multiplicidade, um âmbito ou uma esfera em que a vida acadêmica seja menos estruturada pela violência estrutural que a funda e a assombra, uma instância aberta, enfim, que confronte a unicidade suposta do Mundo a partir da retomada de um território de vida possível e de um horizonte de multiplicação dos mundos.

Há muito mais a fazer no sentido de transformar os espaços acadêmicos que habitamos por meio de experiências de hospitalidade radical, mas eis aí um começo, um risco, um passo.

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